quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

Da Silva: A grande fake news da esquerda - Pavinatto

 De acordo com Tiago Pavinatto, em sua obra "Da Silva: A grande fake news da esquerda", o maior desserviço histórico dos comunistas no Brasil foi alçar o cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva, vulgo Lampião, ao status de herói nacional.
Em seus discursos, o militar e político comunista mais famoso do Brasil - Luís Carlos Prestes - capciosamente vendeu Lampião e o seu bando para o mundo como pobres camponeses que se insurgiram contra a opressão. A partir da defesa nada honesta dessa fake news irresponsável, conclamou o Partido Comunista do Brasil a abraçar os cangaceiros para assim, guiar esses companheiros dispersos em uma verdadeira frente ampla pela luta de massas contra o sistema de privilégios.

Mas afinal, quem eram os cangaceiros na realidade?
Um cangaceiro não passava de um miliciano de aluguel, contratado com a finalidade de manter os latifúndios e o poder político de seus proprietários, os coronéis, através de extrema violência.
O fenômeno do Cangaço ocorreu no Nordeste brasileiro e teve seu ápice na década de 1930, tendo como seu maior expoente o sanguinário líder Virgulino Lampião. Seu bando percorria o Sertão tocando o terror nas famílias mais pobres, extorquindo os pequenos fazendeiros, espoliando os seus bens, além de estuprar e matar dezenas de meninas e mulheres: o mais puro caldo do sadismo.
Quando o bando de Lampião assassinava qualquer homem que, em sua casa fosse marido, matava também a sua esposa caso ela fosse considerada feia - com ou sem estupro coletivo. Todavia, se fosse considerada bonita, a pobre mulher ficava "à disposição" dos cangaceiros presentes: quem quisesse se tornaria dono dela, como se ela fizesse parte do espólio do defunto.

Pavinatto narra várias atrocidades cometidas contra mulheres durante o Cangaço. Entre elas, a notícia que mais provocou náusea em todo o país e foi capa do jornal A Noite, em 11 de junho de 1931, estampada com a foto de Maria Felismina, pobre moça ferreada na face por Lampião.


Em Porto da Folha, Sergipe, Virgulino invadiu um casamento, estuprou a noiva fazendo-a sangrar e, antes de oferecer a vítima a todos os cangaceiros que estavam com ele, mandou que a avó desta limpasse o sangue que sujava seu pênis.
Em outra ocasião, durante um estupro coletivo, a vítima sofreu uma hemorragia e para não frustrar a "festa", Lampião encheu sua vagina de terra e socou com um punhal para estancar o sangue que corria. 
Outro cangaceiro do grupo, o comparsa Zé Baiano, além de ferrar mulheres com suas iniciais e se excitar com o cheiro de carne queimando em brasa "notabilizou-se" também por estuprar Maria de Nazaré, uma menina cega de 10 anos, na frente de seu pai.

Mas e a rainha do Cangaço?
Maria de Déa foi apelidada pela imprensa carioca de "Maria Bonita", em referência a protagonista do romance homônimo de Afrânio Peixoto que contava a estória de uma jovem baiana extremamente bela, que enfrenta as dificuldades da vida no sertão. 
No entanto, de bela, Maria não tinha absolutamente nada, nem tampouco de sensata. Deslumbrada com todo o poder, o dinheiro e o status de ser a primeira-dama do Cangaço, não empatizava com as vítimas do marido e seu bando bestializado.

Sobre a personalidade psicopata do "rei do Cangaço":



Além de misógino, Lampião era notoriamente preconceituoso e se orgulhava disso. Mesmo sendo um sujeito coxo, levemente corcunda e de pele acentuadamente escura, além de cego de um olho, carregava convicções preconceituosas contra carecas, homens efeminados, pessoas com deficiências e principalmente contra pessoas pretas. Segundo suas próprias palavras: "Negro não é gente. Negro é a imagem do cão."
O fel de sua personalidade sem dúvida foi herança de sua família degenerada, que antes mesmo de Virgulino nascer fora expulsa da região de Inhamuns no Ceará, pois apesar de serem pequenos proprietários, os Ferreira da Silva eram notórios ladrões de animais. 
O narcisismo do rei do Cangaço era também alimentado pelos coronéis que o disputavam, pois mesmo extorquidos e traídos, continuariam a desejar sua amizade e jamais lhe trairiam. Mas por qual motivos tais coronéis se submeteriam a uma posição tão humilhante? 
Porque Lampião era o protagonista do tráfico de armas no Brasil, armas essas que eram de uso exclusivo do exército brasileiro e lhes eram vendidas por soldados sergipanos e autoridades do governo baiano. Garantindo a ele abastecimento contínuo para sua milícia.
Por fim, o componente sádico da persona de Virgulino pode ser mensurado pelo prazer que este ser atávico tinha em humilhar pessoas humildes e desarmadas. Aliás essa sempre foi a tônica de seu grupo. A brincadeira do castiçal é um exemplo claro de sua boçalidade: consistia em escolher um homem, para que ficasse de quatro e, introjetada uma vela em seu ânus, este deveria aguentar até que queimasse toda.
Outra modalidade de tortura criada pelo gênio doentio do cangaceiro, consistia em prender à chave, em uma gaveta, o saco escrotal da vítima e deixar à sua disposição uma faca, após atear fogo no recinto... E assim, apostar com seus cabras se a vítima morreria queimada, ou castrando-se conseguiria sair do local.
O fim dessa quadrilha sádica todos nós sabemos qual foi. E ao meu ver, eles simplesmente colheram o que plantaram: emboscados pelo Tenente João Bezerra em Angicos, foram assassinados com rajadas de metralhadora e posteriormente decapitados.


Se após ler os fatos narrados nessa elucidativa obra de Pavinatto, que desconstrói o mito do "rei do Cangaço" e está embasada em farta bibliografia sobre o assunto, você ainda não sair convencido de que a  romantização da figura de Lampião como um Robin Hood tupiniquim trata-se de uma grande mentira, fruto da diabólica manipulação do pensamento engendrada pelos políticos de esquerda, pela imprensa, bem como pelo meio artístico, que durante anos fomentou essa falsa e perversa figura como se fosse um herói... 
Não sei mais o que será necessário, pois realmente, algumas pessoas encontram-se num nível de dissonância cognitiva tão profunda, que não há maneiras de convencê-las da verdade.

Você pode escolher pensar por si mesmo!
Leia o livro, faça suas pesquisas e chegue a suas próprias conclusões.
Essas são minhas recomendações por hora!

Boa leitura!

quarta-feira, 15 de novembro de 2023

Ossos do ofício - Sue Black

Sue Black é antropóloga forense da Coroa Britânica e nos presenteia com a narrativa de suas experiências profissionais em sua obra "Ossos do Ofício".
No Reino Unido a antropologia forense é uma ramo da perícia criminal. Quando os patologistas não conseguem mais solucionar o enigma dos corpos já em estado avançado de decomposição que chegam ao Instituto Médico Legal - mais precisamente os esqueletizados - então o antropólogo entra em campo com seu conhecimento aprofundado sobre os ossos do corpo humano.


De acordo com Sue, cada osso é capaz de nos contar um pouco da história de vida daquele ser humano a quem pertenceu. Por menor que seja, um fragmento pode revelar não apenas os genes e a identidade do seu possuidor, mas também detalhes a respeito da forma como essa pessoa morreu.
O mais interessante dessa obra é que paralelamente ao conhecimento técnico que Sue habilmente expõe, ela também nos traz um olhar de humanidade não apenas para os restos mortais analisados por ela durante seus anos de profissão, como também sobre as partes do nosso próprio corpo. Eu por exemplo adquiri uma consciência corporal muito maior após essa leitura. Digo isso porque conhecer mais detalhadamente aspectos sobre o meu corpo, mais especificamente sobre meus ossos, que me fornecem sustentação em minhas atividades diárias é algo fascinante.
Eu sou farmacêutica e estudei anatomia na faculdade, porém não me especializei no tema a ponto de conhecer minúcias. Para quem flerta por exemplo, com a área da perícia criminal, sendo profissional de saúde ou não, a leitura de um livro como esse é bastante enriquecedora do ponto de vista técnico e como experiência de vida - agrega informações extremamente úteis, pois proporciona autoconhecimento, a medida que passamos a compreender melhor como funciona nosso corpo.
O livro é dividido em cinco partes. A primeira "O esqueleto" vai nos introduzir ao tema - a antropologia, o estudo do esqueleto humano e suas aplicações na perícia forense, na segunda: "Cabeça" ela traz casos interessantes de como identificou cadáveres a partir de crânios já em completo estado de decomposição (cito um exemplo abaixo). A terceira parte "Corpo", divide-se em espinha, peito e garganta e um fato bastante interessante que ela descreve nesse capítulo é a "fratura do enforcado" sobre a qual eu tinha uma noção muito rasa e complementei bastante meus conhecimentos através da leitura. Na quarta parte ela fala dos "Membros" e destrincha o funcionamento das cinturas escapular e pélvica, ossos longos, pés e mãos. A conclusão vem na quinta parte: "Juntando os ossos" e realmente nos faz refletir sobre todo o aprendizado adquirido durante a leitura e como isso fará diferença em nossas vidas.

Um dos casos que a autora expõe e o da coreana Jin Hyo Jung. 


Dois rapazes estavam de carro no campo quando viram uma mala prateada largada numa vala lateral de uma estrada remota. Eles pararam para dar uma olhada - ela estava pesada e quando eles repararam que da mala vazava um líquido marrom e um odor pungente, eles não a abriram: ligaram para a polícia da região.
No necrotério, a polícia e o patologista abriram a mala e encontraram uma jovem nua, encolhida em posição fetal - o rosto e a cabeça estavam enrolados em fita adesiva, as feições visíveis indicavam que era de origem asiática, porém as impressões digitais e o DNA dela não foram localizados nos bancos de dados da Instituição. Nada parecia bater com os nomes listados nos registros de desaparecidos do Reino Unido. Sem pistas sólidas e com o rosto do cadáver desfigurado pela decomposição e as fitas, a antropóloga forense entrou em ação.
Após a realização de exames minuciosos no cadáver e com base em radiografias, Sue estabeleceu que a jovem tinha entre 20 e 25 anos de idade quando morreu.
Assim, a Interpol emitiu uma notificação internacional sobre um corpo encontrado, não identificado com essas características. Na França, uma estudante sul coreana havia desaparecido e após comunicação com a embaixada da Coreia do Sul e uma transferência de impressões digitais do documento dela, a identidade foi logo confirmada.
Jin Hyo Jung estava visitando o Reino Unido como turista e tinha alugado um quarto no apartamento que pertencia a um senhorio coreano, em Londres. No apartamento do homem foi encontrado o rolo de fita utilizado para enrolar o rosto da jovem. E aquele rolo de fita continha sangue compatível com o da vítima. O sangue de Jin também foi encontrado no apartamento e no carro do senhorio - Kim Kyu Soo.
Após vasculharem outra propriedade de Kim, a polícia encontrou o corpo de outra jovem sul coreana que havia desaparecido anteriormente - ela estava dentro de um guarda-roupa amarrada com a mesma fita. Preso e levado a julgamento, ele foi considerado culpado pelo homicídio das duas mulheres, roubo de suas contas bancárias - ele havia retirado todo o dinheiro da conta das garotas - bem como por obstrução de justiça, pois ocultou os corpos. Ele foi sentenciado a prisão perpétua duas vezes.
Os aspectos técnicos que conduziram Sue a essa conclusão são descritos no livro, a análise de aspectos de desenvolvimento e envelhecimento dos ossos, não apenas do crânio mais de outras partes do corpo foram cruciais para a determinação da idade da vítima e por fim, possibilitou o esclarecimento de sua identidade em conjunto com a divulgação adotada pela Interpol.

Para quem estiver interessado em atuar nessa área, recomendo essa leitura como forma de aprofundar-se no tema, mas esclareço que o livro aborda especificamente a antropologia forense (o estudo dos ossos, do cadáver esqueletizado). Outros livros, contendo temas como a patologia forense, que abrange mais os aspectos dos cadáveres em menor estado de decomposição, como pro exemplo "O Segredo dos corpos" do Dr. Vincent de Mayo também são bastante enriquecedores.



Espero que tenham gostado da dica! Tenham uma excelente leitura.

segunda-feira, 9 de outubro de 2023

O pequeno príncipe - Antoine de Saint-Exupéry

 A tensão dos últimos dias devido a invasão de Israel e a guerra, tem nos causado desconforto e ansiedade. Uma das formas que eu encontro desde sempre, para mudar o foco da minha mente para coisas positivas é a leitura.
Mudar o foco não quer dizer manter-se alienado da realidade, eu acompanho as notícias e oro pela população que sofre com as consequências do conflito, mas procuro um conforto nesse hábito que é um oásis na minha vida.
Esse final de semana terminei a leitura do "Pequeno Príncipe" de Antoine de Saint-Exupéry. Fiz essa leitura em paralelo a outras, mas nesse momento de angústia ela realmente fez a diferença. Foi uma lufada de frescor para a alma.



O autor era aviador e escrever para ele era um hobby. Sei bem como é isso, estar dividido entre a paixão por sua profissão e o amor pela literatura.
Na minha interpretação "O Pequeno Príncipe" é uma obra sobre o resgate da criança interior perdida. 
No início o piloto, que é o narrador da história, aparece em meio a um deserto consertando seu avião que havia quebrado. De repente se depara com um menino pequeno, de cabelos dourados, que lhe pede que faça desenhos.
O pequenino também começa a contar-lhe a sua saga, desde a saída de seu planetinha natal até a chegada da Terra. Seu pequeno planeta tinha três vulcõezinhos e uma rosa, a sua rosa. A vaidade de sua flor o impele a sair em busca de novas experiências, pois lidar com ela era bem cansativo. Nessa busca, o pequenino passa por vários outros diminutos planetas, habitados respectivamente por um rei, um homem vaidoso, um bêbado, um homem de negócios, um acendedor de lamparinas, um geografo e enfim, a sétima parada era a Terra, onde conhecera o piloto.
Após narrar sua epopeia ao aviador, o menino resolve sair para um breve passeio pelo deserto e encontra belas paisagens de onde pode apreciar as estrelas. Se depara com um jardim repleto de milhares de rosas e nesse ínterim conhece uma raposa falante, que transmite preciosas lições:

"... é somente com o coração que podemos ver corretamente; o essencial é invisível aos olhos."
" - Foi o tempo que perdeu com sua rosa que fez dela uma rosa tão importante."
"... Você se torna eternamente responsável pelo que cativou. Você é responsável por sua rosa."

O príncipe despede-se da raposinha, segue errante pelas paragens próximas e encontra uma estação ferroviária. Lá observa pessoas superocupadas descendo e subindo dos trens, sem se dar conta de que a vida passava. Depois disso encontra um comerciante que vende pílulas para matar a sede das pessoas - o objetivo dessas pílulas era que as pessoas economizassem o tempo que gastavam em suas vidas com o ato de ter que beber água.
Horrorizado com tamanha desconexão das "pessoas grandes" com a importância das coisas simples da vida, o garoto retorna ao local de origem e reencontra o aviador para uma triste despedida. Ele decide voltar para seu planetinha e sua rosa, mas antes deixa a seguinte mensagem:

" - As pessoas - disse o pequeno príncipe - seguem seu caminho nos trens expressos, mas elas não sabem o que realmente estão buscando. Então elas vivem correndo, estressadas, dando voltas em torno do mesmo lugar. E nada disso vale a pena."

O coração do piloto é tomado de ternura ao despedir-se do menino.

Ao fim da história, pude compreender que esse encontro entre ambos (o homem e o menino) no deserto representa o reencontro de um adulto solitário com sua criança interior. Uma criança que viajou mundos, conheceu todo tipo de pessoas superficiais, mas não se esqueceu de sua rosa. A delicada rosa, que representa suas emoções que devem ser cultivadas, protegidas das más influências do mundo excessivamente racional, que não reconhece o valor da coisas simples da vida e das conexões afetivas que devemos formar, pois são essas memórias que levaremos conosco quando partirmos desse planeta.
Nesse momento difícil, onde a humanidade encontra-se quase que totalmente cegada por seu narcisismo, hedonismo e materialismo, digo que apreciar a água que se bebe, desfrutar a companhia daqueles que amamos, tudo isso é muito precioso! Cultivemos e cativemos a rosa que brota dentro de nós, na nossa alma, através da construção de laços e memórias afetivas, valorizando cada pequeno milagre diário da vida!!!

Boa leitura.

domingo, 10 de setembro de 2023

As cinco feridas emocionais - Lise Bourbeau - Ferida da HUMILHAÇÃO

 Conforme prometido retornamos com a resenha da terceira ferida emocional, a ferida da HUMILHAÇÃO.
Essa é uma ferida relacionada ao TER e ao FAZER, ela desperta no período em que a criança aprende a comer sozinha, a ser asseada, a usar o banheiro, a falar, a escutar e compreender o que os adultos lhe dizem, ou seja, quando a criança passa a ser mais independente, mais autônoma.
Seu despertar se produz no momento em que a criança sente que SUA MÃE (sim, essa é uma ferida gerada pela mãe, independente do sexo da criança, ou pelo pai, quando esse assume um papel de "educador" que geralmente é da mãe) tem vergonha quando o filho (a) está sujo, faz uma má-criação ou está mal vestido por exemplo - sobretudo quando isso ocorre em público ou em frente a outros familiares.
O comportamento de ridicularizar, expor o filho na frente de outras pessoas faz a criança acreditar que envergonha e enoja seus pais. Então ela se sente humilhada e se culpa por isso. Vale ressaltar que as crianças não sabem se auto regular emocionalmente, portanto os pais deveriam fazê-lo, mas quando não cumprem seu papel, essa criança vai forjar para si a máscara do MASOQUISTA a fim de camuflar seu sofrimento interno.
É de conhecimento geral que o MASOQUISMO é o comportamento da pessoa que encontra satisfação e até prazer em sofrer. Em geral são pessoas que procuram dor e humilhação de maneira inconsciente. Condicionados a sofrerem humilhações calados na infância, os masoquistas crescem com dificuldade para exprimirem suas reais necessidades e seus reais sentimentos. Evitam falar com medo de se envergonhar ou de causar vergonha a alguém.
Se privam de vivenciar situações que lhe proporcionariam lazer ou distração, uma vez que se sentem indignos disso. Portanto são pessoas que costumam estudar ou trabalhar demais, de maneira que encontrem nos sacrifícios o seu prazer.
São frequentemente apegados a mãe e vão fazer de tudo para não lhe causar vergonha. Essa mãe acaba tendo bastante influência sobre o masoquista mesmo que isso aconteça de modo inconsciente e involuntário. Em geral, eles chegam a ponto de perder o contato com os próprios desejos para não desagradar a mãe.
Para se esquecer de si mesmo e de suas vontades, o masoquista desenvolve a capacidade de se colocar em situações em que deve cuidar de alguém. Fazendo de tudo pelos outros, muitas vezes se degrada e se humilha, mas isso, o faz sentir que sem sua ajuda as outras pessoas não serão bem sucedidas. Ele faz de tudo para se mostrar útil aos outros como forma de esconder sua ferida.
O indivíduo que sofre com a ferida da humilhação sempre se recrimina por tudo e até mesmo assume a culpa de algo pelos outros. 
Ele tem a capacidade de fazer os outros rirem. Ele é muito expressivo e engraçado contando histórias e coloca-se como alvo do riso das pessoas. É uma maneira inconsciente de se humilhar e rebaixar. Assim talvez, ninguém adivinhe que, sob as palavras que despertam risadas, se esconde o medo da vergonha.
Não somente o medo da vergonha ronda a vida do masoquista, como também o de magoar os outros, de parecer egoísta, de revelar suas necessidades ou desejos, de ser rebaixado e humilhado (por isso muitas vezes ele mesmo se rebaixa), de que o outro o faça se sentir um lixo, de se sentir ou ser taxado de indigno. Reconhecer-se nesses medos é um bom meio para você detectar se possui essa ferida.
Precisamos falar do grande tabu na vida do masoquista, a vergonha sexual. Lise Bourbeau diz no livro que essa vergonha é transmitida de geração em geração em uma família e só será resolvida quando a ferida da humilhação for curada. Ela constatou ao longo dos anos de atendimentos e pesquisa, que a maioria dos indivíduos que sofre de humilhação faz parte de famílias cujos membros têm problemas sexuais e se relacionam com pessoas com esses dilemas. 
Tantos desejos reprimidos fazem com que haja muita energia bloqueada no corpo do masoquista. Se ele se permitisse sem vergonha ou culpa, ser livre como precisa, com certeza não teria tanto acumulo de peso, literalmente. Suas características físicas abrangem o sobrepeso, a estatura baixa, o pescoço largo e inchado, tensões no pescoço, mandíbulas e pélvis. Carregar o peso de suas escolhas não feitas, vontades reprimidas, responsabilidades em excesso (que ele absorve para si para aliviar os outros) tem um peso, um peso que se manifesta em seu corpo físico, infelizmente.

Nas próximas semanas, voltarei trazendo a resenha a respeito da ferida da TRAIÇÃO. 
Você pode ter se identificado com a ferida do HUMILHAÇÃO, porém, lembre-se que o grau das feridas que possuímos pode variar e sempre teremos mais de uma delas, em proporções diferentes. Por isso recomendo que acompanhe as demais postagens do blog!



sexta-feira, 14 de julho de 2023

As cinco feridas emocionais - Lise Bourbeau - Ferida do ABANDONO

 Continuando nossa jornada de autoconhecimento a respeito das feridas emocionais que nos acometem desde a mais tenra idade, vamos conversar um pouco sobre a ferida que considero a mais nociva (minha opinião pessoal) a ferida do ABANDONO.
Abandonar alguém é deixá-lo, largá-lo, não querer mais se preocupar com ele. De acordo com Lise Bourbeau rejeição e abandono não são sinônimos, pois a ferida da rejeição é ativada em nós pelo genitor do mesmo sexo e a ferida do abandono, pelo do sexo oposto.
Quando crianças podemos nos sentir abandonados frente a diversas situações, tais como: quando nossos genitores passam a se ocupar com um novo bebê, quando os pais saem para trabalhar e tem de nos deixar com outras pessoas por muito tempo, se um dos pais é muito doente e o outro muito ocupado, se os genitores são narcisistas ou sociopatas e não dedicam tempo, nem afeto aos filhos.
Quem sofre de abandono não se sente alimentado afetivamente e pode também ter sofrido com falta de alimento físico. A máscara que esse indivíduo abandonado vai desenvolver para camuflar essa ferida será a do DEPENDENTE.
O dependente desenvolve uma crença de que não tem forças para conquistar nada sozinho e que precisa de outra pessoa para auxiliá-lo. Seu corpo físico acaba por refletir essa necessidade de apoio: sua característica mais marcante é a falta de tônus muscular, com partes do corpo apresentando flacidez (nádegas, seios, barriga) e uma coluna de aparência curvada, como se o corpo não fosse capaz de suportar o próprio peso.
Geralmente tem dificuldades para tomar decisões por si próprio e costuma pedir opinião ou aprovação dos outros, antes de decidir qualquer coisa. 
O dependente se manifesta muitas vezes como vítima. A vítima é uma pessoa que engendra todo tipo de dificuldades ao longo da vida para chamar a atenção para si. É uma pessoa que dramatiza muito, o mais ínfimo incidente ganha proporções gigantescas. 
Por outro lado, o dependente pode gostar de fazer o papel de salvador, como quando este desempenha o papel de pai ou mãe de outra pessoa (figurativamente falando). Na realidade quando o dependente faz muito por outra pessoa, ele deseja sobretudo ser reconhecido, elogiado e sentir-se importante, com a expectativa de um retorno afetivo - é uma espécie de conarcisismo. A diferença entre os dependentes e os narcisistas é que os primeiros são empatas, porém ambos necessitam de validação de suas ações, ou seja, dependentes e narcisistas são muito parecidos e costumam se atrair em relações altamente tóxicas. Os dependentes veem os términos de suas relações (sejam elas com pessoas narcisistas ou não) como abandono e revivem então, a ferida emocional da infância, por isso sofrem mais intensamente.
De fato a solidão é o maior medo do dependente, por esse motivo, a pessoa dependente é mais propensa a "não enxergar" problemas em seu relacionamento. Temendo ser abandonada prefere acreditar que tudo vai bem: mesmo sendo agredida física e psicologicamente permanece na relação abusiva por se sentir incapaz de administrar a própria vida. Outro grande medo daqueles que possuem a ferida do abandono é o de não corresponder as expectativas dos outros e, aliado a incapacidade de fazer uma autocrítica, esse receio impede que o dependente admita sua ferida - é mais fácil servir de capacho das vontades alheias do que assumir as rédeas da própria vida.
Uma observação bem interessante que Lise faz no livro é a seguinte: "Enquanto guardamos ressentimento contra um de nossos pais (mesmo que inconscientemente) , nossas relações com todas as outras pessoas do mesmo sexo desse genitor serão difíceis."
Lembre-se de que nossa incapacidade de nos perdoarmos pelos sentimentos negativos que carregamos com relação aos outros é a principal causa de uma ferida. SIM! Sentimos culpa pela raiva, pela mágoa, que guardamos de nossos genitores - afinal a sociedade diz que devemos honrar nossos pais. Mas honrar pai e mãe, na realidade, significa tão somente não repetir os mesmos erros que estes cometeram conosco e consigo próprios.
Pesquisas nas áreas de medicina e psicologia constataram a perpetuação , de geração para geração, de doenças ou comportamentos destrutivos em famílias tóxicas. Elas apontam a existência de famílias de diabéticos, cardíacos, asmáticos (pois quanto mais profunda for a ferida do abandono na pessoa, maior o grau de autoabandono ou de abandono a outras pessoas , situações ou projetos). Da mesma forma, apontam a existência de famílias que perpetuam em seu seio comportamentos delituosos, violentos, viciosos, etc.

Nas próximas semanas, voltarei trazendo a resenha a respeito da ferida da HUMILHAÇÃO.
Você pode ter se identificado com a ferida do ABANDONO, porém, lembre-se que o grau das feridas que possuímos pode variar e sempre teremos mais de uma delas, em proporções diferentes. Por isso recomendo que acompanhe as demais postagens do blog!


quinta-feira, 29 de junho de 2023

As cinco feridas emocionais - Lise Bourbeau - Ferida da REJEIÇÃO

Lise Bourbeau é uma filósofa americana que foi discípula de Barry Walker, um estudioso de Freud. Como sabemos, Freud foi o "descobridor" do inconsciente e ousou afirmar  que a esfera física tem um elo com as dimensões mental e emocional do ser humano.
Com base em seus estudos metafísicos, Lise escreveu o livro "As cinco feridas emocionais" e através dele nos conduz a senda do autoconhecimento, descrevendo cada uma das feridas que nossa criança interior pode sofrer durante a infância (sobretudo em ambientes tóxicos e abusivos) bem como as máscaras que usamos para camuflá-las durante a vida. Essas feridas não só moldam nosso comportamento e nossa personalidade, mas também nosso aspecto físico, tanto com relação a aparência quanto com relação as doenças que podemos vir a desenvolver.




Criação das feridas e das máscaras: 
Quando nascemos, sabemos que a razão para estarmos encarnados é sermos nós mesmos, é expressarmos nossa essência divina - que é pura luz - em meio a esse plano material.
Entretanto, quando vivemos experiências que nos impedem de exteriorizar esse Eu, situações essas que nos tolhem a alegria de viver, desenvolvemos feridas emocionais que de acordo com a autora podem ser cinco: a ferida da rejeição, do abandono, da humilhação, da traição e da injustiça.
Quando temos dificuldade para aceitar essas experiências negativas (que fique claro - aceitar não é concordar) passamos a mascarar nossas feridas ocultando-as dos outros através de padrões de comportamento ou máscaras, que são: no caso da rejeição, a máscara do escapismo; do abandono, a da dependência; da humilhação, a do masoquismo; da traição, a do controlador; e por fim, da injustiça, a da rigidez.
Tudo que nós vivemos na não aceitação tem a tendência de se repetir em nossas vidas e se acumular energeticamente ao nível da alma (de nossas memórias). Portanto, curar as velhas feridas através de um processo de encará-las exige muita coragem. Porém para ajudar-nos nessa missão, podemos contar com nosso Eu Superior - que é Deus que habita em nós - e nos guia pelo caminho de aprendizados que nos conduzirá a cura.
Cabe ressaltar que podemos possuir mais de uma ferida, porém uma delas sempre será maior e mais prevalecente em nós. Constatamos isso através da observação de nosso corpo físico - nossa aparência e problemas de saúde, que tem origem nas feridas de nossa alma - que são nossas crenças limitantes.

Nessa resenha vamos falar especificamente da ferida da REJEIÇÃO:

Rejeitar significa repelir, recusar, não acolher, não assimilar. A rejeição é uma ferida muito profunda, pois aquele que é rejeitado sente-se tolhido de seu direito de existir. Podemos tomar como exemplo o bebê não desejado (quantos de nós fomos!) aquele que chega "por acidente". A partir do instante que se sente rejeitado, ele passa a fabricar uma máscara, a do escapista, que será sua nova personalidade, aquela desenvolvida para evitar a rejeição.
O escapista desenvolverá um corpo físico que parece querer desaparecer: estreito, contraído, magro. Sua aparência pode parecer fragmentada - um lado do corpo maior que o outro com partes parecendo infantis. Um corpo que parece duvidar de seu direito de existir, de se desenvolver como humano. Os olhos podem ser rodeados por olheiras profundas que servem como máscaras, pois ele pretende passar a vida se escondendo, se refugiando em seu mundo interior e seus devaneios. Pode apresentar problemas de pele e sendo um órgão de contato, a doença de pele pode evitar que outras pessoas se aproximem demais.
Crianças superprotegidas também podem se sentir rejeitadas, pois creem que não são aceitas pelo que são. Suas capacidades são subestimadas a medida que os seus genitores passam a fazer e pensar tudo por elas. Resultado: a criança se sente rejeitada em suas capacidades.
Segundo Lise, a ferida da rejeição é vivida com o genitor do mesmo sexo. Não aceitar aquele de seus pais que tem o mesmo sexo que o seu, explica suas dificuldades em se aceitar e se amar.
Filhos de pais narcisistas costumam apresentar essa ferida, pois são constantemente tratados como lixo, como derrotados. Por isso se afastam dos genitores, literalmente somem. Procuram não se expor, não se envolver tanto em relacionamentos, por medo de sofrer nova rejeição. 
Pelos motivos listados acima, o escapista vive na ambiguidade. Quando é escolhido por algo ou por alguém, não acredita e rejeita a si próprio sabotando a situação. Quando não é selecionado, sente-se rejeitado pelos outros.
Somatizamos o sentimento de rejeição em nosso corpo através das características de nossa aparência, bem como por meio das doenças que manifestamos ao longo dos anos: distúrbios alimentares como anorexia - o escapista inconscientemente come pouco, pois deseja desparecer; câncer - a ferida da rejeição causa tanto mal que é completamente normal para um escapista odiar seu genitor do mesmo sexo. Por outro lado, ele se ressente disso. Enquanto o escapista não se der ao direito de odiar esse pai ou mãe, ele pode desenvolver o câncer, uma vez que a mágoa ou o rancor decorrente de uma dor vivida no isolamento somatizam-se na forma de neoplasias; alergias e doenças autoimunes- a rejeição se manifesta por intermédio da ação de um sistema imunológico hiperreativo, que faz com que o corpo se autoflagele; depressão: outra doença relacionada ao ódio que o rejeitado nutre pelo genitor, essa raiva consome todas suas energias deprimindo seu sistema nervoso e por fim, psicose: o escapista quando jovem, tem dificuldade de reconhecer seu valor e tende a tentar ser igual a outra pessoa, ou seja, ele se dilui na personalidade de alguém que admira. O perigo desse tipo de comportamento é que mais tarde, pode se transformar em psicose.

Como curar a ferida da rejeição:
No quesito "formas de superar a ferida", o livro de Lise deixa um pouco a desejar.
Porém, algumas inferências podem ser extraídas da obra: primeiramente precisamos reconhecer que possuímos a ferida da rejeição, depois devemos aceitar a experiência, lembrando que aceitar que passamos por algo não significa que concordamos com o comportamento genitor que nos causou essa injúria. Permitir-se sentir raiva, mágoa e outros sentimentos com relação a nosso genitores também é fundamental, pois reconhecer os sentimentos nos permitirá limpá-los posteriormente. Por fim, perdoarmo-nos por nutrir tais emoções negativas é importantíssimo no processo, uma vez que na realidade, tudo que desejávamos no fundo era simplesmente ser amados por nossos pais.
O perdão aos genitores é um tema mais sensível e profundo. Filhos de pais narcisistas e sociopatas que sofreram com a falta de conexão afetiva, o desamparo aprendido, a falta de empatia e os abusos físicos e psicológicos perpetrados por estes, necessitam de um apoio psicológico profissional. Nesses casos a leitura do livro colaborará para o seu processo de expansão de consciência e autoconhecimento, mas a cura, será um processo mais complexo.
Eu adotei a prática do ho'oponopono para limpeza de memórias negativas e essa ferramenta tem proporcionado resultados maravilhosos em minha vida, portanto recomendo.

Finalizando, gostaria de lembrar que ainda há quatro feridas a serem explanadas. Voltaremos um breve com a resenha sobre a ferida do Abandono, e não, abandono não é o mesmo que rejeição, mas explico melhor depois!
Até a próxima!

segunda-feira, 15 de maio de 2023

A garota da casa ao lado - Jack Ketchum (baseado no caso Sylvia Likens)

Um livro que conta com o prefácio do rei do terror - Stephen King - com certeza entrará para o rol de suas leituras prediletas. Pelo menos entrou para o meu.
Eu classifico essa obra como uma daquelas em que a gente morre um pouco enquanto lê. 


Morre em nós a inocência de enxergar o mundo sob um véu cor-de-rosa, através do qual ainda podemos acreditar que todo ser humano no fundo é bom e pode ter uma segunda chance, mesmo após cometer os crimes mais atrozes.
É mais fácil pensar assim. É muito doloroso imaginar que possa haver gente capaz de torturar um semelhante com requintes de crueldade e ir ceifando sua vida aos poucos, saboreando cada segundo de sadismo com prazer insano.
A dinâmica dessa obra é exatamente a descrita acima. Baseado em fatos da vida real, mais precisamente na história da pobre Sylvia Likens, Jack Ketchum nos conduz com maestria ao porão da casa dos "Chandler", em uma cidadezinha do interior dos Estados Unidos, onde as sevícias sofridas pela adolescente "Meg" são executadas por um bando de delinquentes juvenis, tutelados por uma escória ambulante que atende pelo nome de "Ruth Chandler".
A história de Ketchum, conta com um narrador em primeira pessoa, o garoto David, vizinho de Ruth e melhor amigo de seus três filhos: Willie, Donny e Ralph.
Os Chandler recebem em sua casa as irmãs Meg e Susan, que são suas primas distantes. As garotas ficam órfãs após um acidente de carro ceifar a vida de seus pais. 
Presentes no acidente, ambas sobrevivem, mas Susan permanece com sequelas que a incapacitam de andar normalmente.
Ruth, abandonada pelo marido, sustenta seus três filhos com a parca pensão que este lhe envia todos os meses. Não bastasse o peso de criar os meninos, ainda resta a ela a responsabilidade pelas garotas órfãs (uma delas deficiente física) o que conforme podemos perceber ao longo da narrativa, torna as coisas cada vez mais complicadas para a instável matriarca.
Como é típico dos psicopatas, que por algum tempo até conseguem esconder sua verdadeira essência por trás de uma máscara de pretensa simpatia e afeição, Ruth vê seu frágil superego colapsar diante de um compromisso tão grande.
Pressionada e sentindo-se desamparada, Ruth passa a despejar seu balde de ódio sobre Meg, começando com abusos psicológicos sutis, como falar de seu peso (para ela, Meg estava gorda), falar do quanto é horrível ser mulher - partindo para a restrição de alimentos (Ruth proíbe Meg de comer) e posteriormente, chegando a violência física como surras na garota e em sua irmã mais nova.
Bastava a presença de Meg dentro de casa, para que a megera começasse a sessão de torturas psicológicas que passaram a seguir uma escalada insana: Ruth começa a incentivar os filhos a agredirem a jovem também.
A essa altura a história começa a ficar indigesta. Confesso que fui espaçando os capítulos, pois foi realmente muito difícil ler com fluidez, sem me ressentir por Meg... A misoginia de Ruth fica clara, quando as ofensas verbais são direcionadas a garota simplesmente por ela ser do sexo feminino, por ser bela e consequentemente cobiçada por isso.
Para os sociopatas, a feminilidade, a delicadeza e a afetividade são fraquezas, já que os próprios não possuem tais atributos. Dessa forma seu intento passa a ser destruir aqueles que os têm.
Após trancar Meg definitivamente no porão, as sessões de tortura se mostram mais intensas, primeiro com queimaduras de cigarros, surras, privação severa de alimentos, estupro e começam a contar com a participação de outros jovens da vizinhança - que se juntam a missão macabra. Ruth manda o filho rabiscar com uma lâmina a seguinte frase no corpo de Meg: "Eu fodo, me fode". A garota, já fragilizada por tanto sofrimento ainda resiste a queimaduras com ferro quente em sua genitália.
David, o narrador, presencia tudo e tenta em vão ajudar Meg a fugir. Até que um belo dia, finalmente se rebela de vez e ataca os Chandler. 
Mas ao invés de conseguir libertar sua amiga, ele fica preso junto a ela e Susan no porão.
O final da história é previsível. Mesmo assim não vou dar spoiler. 
É triste constatar que Meg poderia ter sido salva, se David tivesse agido antes.
Mas o cérebro dos adolescentes é imaturo, subdesenvolvido no que diz respeito a controle de impulsos e empatia, o que não justifica seu comportamento, mas explica em partes.
No caso de David, por vivenciar experiências de abusos domésticos (conforme Ketchum relata na história, o pai agredia a mãe constantemente), o garoto foi se dessensibilizando, acostumando-se às agressões de toda a natureza como se fossem algo rotineiro.




A história da americana Sylvia Likens não é tão diferente da Meg de Jack Ketchum.
A Meg da vida real viveu na década de 60 e era filha de artistas circenses (Betty e Lester Likens) que viajavam muito a trabalho e num dado momento, resolveram deixar as filhas com a vizinha Gertrude Baniszewiski. Em troca enviariam cerca de 20 dólares por mês para custear as despesas das meninas.
Gertrude, assim como Ruth, possuía transtornos mentais severos, oriundos de relacionamentos abusivos. Era desnutrida, fumante inveterada e sofria de "depressão".
Quando o dinheiro dos pais parou de chegar, Gertrude passou a surrar as garotas, direcionando sua raiva com mais intensidade a Sylvia, provavelmente por sua beleza e simpatia. 
As surras, privação de comida, foram escalando para a tortura e abusos sexuais (como os narrados na ficção) tamanha era a violência que Gertrude e seus filhos (e posteriormente vizinhos) perpetravam contra a jovem, que ela passou a ter até incontinência urinária. 
Ela chegou a ser estuprada com garrafas de Coca-Cola e não conseguia mais segurar a urina. Gertrude com raiva, a obrigava a beber o próprio xixi e a comer as próprias fezes.
Após ser agredida com um golpe fatal na cabeça, um hematoma subdural foi a causa da morte de Sylvia e sua libertação de todo esse sofrimento.
Depois de informada do ocorrido pelos Barniszewiski, a polícia compareceu ao local e a irmã de Sylvia, mesmo com medo, denunciou todos os participantes das sessões de tortura aos policiais, que os detiveram. 
Eles foram levados a júri, sofrendo as penalidades impostas pela lei do estado de Indiana. Gertrude foi condenada a prisão perpétua, mas foi solta em 1985 por bom comportamento, sob os protestos da sociedade. Morreu 5 anos depois, de câncer no pulmão.

Após a leitura dessa obra espero sinceramente que você leitor, faça uma reflexão sobre os tipos de seres humanos que existem no mundo.
Há lobos em pele de cordeiro e eles estão no meio de nós.
Cabe a nós identificá-los e não só nos defendermos deles, como também protegermos os mais frágeis de suas ações deploráveis.
Não há compaixão para aqueles que não possuem empatia, afeto ou conexão com o próximo.
Animais selvagens que atacam sorrateiros, seres de sua própria espécie, devem viver enjaulados. Ou seja: psicopatas, assim como os leprosos da antiguidade, devem viver totalmente isolados da sociedade.

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