"Medicina macabra" é uma coletânea de obras publicadas pela Editora Darkside Books, composta por quatro livros até o momento.
O primeiro deles - o qual vos apresento aqui - foi escrito por Thomas Morris. Não encontrei muitas informações a respeito do autor, a não ser a de que ele, como pesquisador, leu muitos artigos bizarros em revistas médicas antigas e resolveu compilá-los nessas quatrocentas e nove páginas de puro entretenimento útil.
Como farmacêutica hospitalar posso afirmar: os artigos e relatórios médicos constantes nesse livro assustam até profissionais experientes como eu (são vinte anos nessa área, então já vi de tudo).
O livro é dividido em sete partes, que ele chama de "incisões", contendo inúmeras histórias.
Pretendo trazer a resenha de um artigo de cada "incisão", a fim de aguçar a curiosidade de vocês.
Parte A: Vergonha alheia - um corpo estranho no cólon transverso.
Você já deve ter ouvido falar de objetos estranhos encontrados nas regiões anais, retais ou intestinais de pessoas - não se trata de um assunto incomum.
Mas um kit de carpintaria inteiro? Nem a mente mais criativa teria a capacidade de imaginar que isso um dia foi possível!
De acordo com a "Medical Times and Gazette", em uma prisão no norte da França onde se realizavam trabalhos forçados, um presidiário perigoso que já havia escapado anteriormente, reclamou de fortes dores no abdome, que surgiram acompanhadas por constipação, enjoo e febre.
Não houve dúvidas portanto, de que se tratava de um caso de "encarceramento intestinal". O médico da prisão suspeitara que um trecho do intestino havia enroscado.
Apesar do tratamento, o paciente piorava e por fim acabou admitindo que havia escondido uma pequena bolsa de couro em seu reto. Mas após um exame, o médico não encontrou nada.
Sem saída o homem então assumiu: não era uma bolsa de couro, mas sim um estojo de madeira!
Após dias de padecimento e sem conseguir expelir o tal estojo, o presidiário faleceu e ao ser submetido a uma autópsia, o objeto cônico-cilíndrico de madeira finalmente foi encontrado pelo legista. O objeto havia lhe causado uma peritonite aguda.
Ao abrir o estojo, um kit completo de fuga foi encontrado lá dentro: um cano de arma, um parafuso de ferro, uma porca, uma chave de fenda, uma serra, uma seringa com agulha, uma lixa, uma moeda e um pedaço de sebo para lubrificar tudo.
Algumas coisas não mudam, não é mesmo? Hoje, não são pequenas caixas que se encontram, mas aparelhos de celular...
Parte B: Insólita medicina - um corpo estranho no cérebro.
Na parte A conhecemos a história de um presidiário com um objeto enfiado no intestino grosso. Um objeto grande demais para ser introduzido pelo reto.
Mas depois de ler o artigo a seguir eu me pergunto: como é possível uma caneta de oito centímetros ir parar dentro do cérebro de alguém?
E sim, isso foi possível também!
Nos idos de 1888, um comerciante ambulante de 32 anos foi tomado por uma súbita dor de cabeça, além de reclamar de sonolência.
Moses Raphael apresentava boa saúde nas semanas anteriores ao fato, tendo mantido seus livros de registro comercial com precisão. Porém, durante o período em que ficou internado foi acometido por um quadro de apoplexia - termo antigo usado para diagnosticar acidente vascular cerebral.
No entanto, durante o exame post mortem do cadáver de Moses, um abcesso do tamanho de um ovo foi encontrado na base de seu cérebro. Dentro dele havia uma caneta bico de pena, com comprimento de 8 cm e o objeto estava cravado no osso do crânio.
Ao receber a notícia a esposa ficou chocada. Não havia da parte de Moses nenhum relato no sentido de ter sofrido algum acidente que houvesse ocasionado aquilo.
Um caso de extrema resiliência do cérebro a um ferimento tão grave que não seria descoberto se a causa mortis tivesse sido declarada como apoplexia.
Ainda bem que os médicos realizaram a necropsia!
Parte C - Remédios irremediáveis - o prodigioso cigarro de mercúrio.
A administração de medicamentos por via inalatória tem sua eficácia comprovada para algumas classes de substâncias que são bem absorvidas por esse meio. No entanto, aliar os medicamentos a fumaça de cigarros, charutos ou cachimbos em tese deveria parecer uma prática absurda - mas pasmem: em 1850 isso era comum!
Um artigo do London Journal of Medicine discorre sobre a prescrição de cigarros medicinais contendo substâncias como mercúrio, ópio e arsênico, além de nitrato de potássio (conhecido como salitre, um componente da pólvora) e tintura de benjoim.
A lista de comorbidades tratatas com essas verdadeiras "bombas", se me permite a licença poética, incluía: ulcerações sifilíticas na garganta, boca e nariz; afonia; sinusite e tuberculose.
Imaginem qual foi a minha reação ao ler tal absurdo? Só faltou a prescrição destes cigarrinhos do capeta para tratar câncer de pulmão. Mas felizmente, nessa mesma época, alguns estudiosos já começavam a relacionar o fumo a proliferação de neoplasias, isso mostra que a ciência está sempre em evolução e questionar é preciso!
Parte D - Cirurgias macabras - o caso do tumor gigante.
No longínquo ano de 1831 um jovem chinês chamado Hoo Loo procurou o primeiro hospital ocidental a ser construído em Macau, que atendia a população daquele país. Sua aparência deve ter sido uma visão chocante - seu escroto havia inchado até tomar proporções grotescas, ao que tudo indica por resultado de uma elefantíase. O diretor do hospital então, pagou por uma passagem para que Hoo Loo viajasse até Londres e fosse operado por lá.
Sua chegada no Guy's Hospital foi noticiada pelos jornais. O tumor de Hoo era enorme - pesava 25 kg - tendo surgido dez anos antes e começado como um pequeno inchaço no prepúcio.
Finalmente o cirurgião Charles Aston Key realizou o complexo procedimento de remoção do tumor - SEM ANESTESIA - pois nessa época não existiam anestésicos como conhecemos hoje. O clorofórmio foi sintetizado pela primeira vez nesse mesmo ano (1831), mas seu uso em anestesia se deu somente anos depois.
O pobre chinês suportou uma quantidade inimaginável de dor!
Sabe-se que Hoo Loo desmaiou várias vezes durante a cirurgia e próximo ao seu fim estava quase inconsciente. Após uma síncope, houve uma consequente diminuição da capacidade cardíaca e respiratória que acabou resultando em sua morte.
De toda essa história, o que choca - além do fato da falta de anestesia - foi o fato de que a cirurgia foi assistida por mais de 600 espectadores presentes na sala!
Sem anestésico e sem privacidade. Era essa a realidade das operações cirúrgicas naqueles tempos. Algo que hoje, nos consterna profundamente.
Parte E - Curas extraordinárias - foi só um arranhão do moinho.
Em 1737 um trabalhador de moinho chamado Samuel Wood sofreu um acidente inusitado: ao se dirigir em busca de um saco de milho do outro lado do moinho para carregá-lo no colhedor, levou consigo, sem perceber, uma corda cuja ponta estava presa com um nó ao redor do pulso. Ao passar por uma das grandes rodas, os dentes dela prenderam a corda, e ele, incapaz de soltar a mão rapidamente, terminou puxado pela roda, a qual o levantou do chão até prendê-lo contra as vigas que suportam seu eixo, terminando por arrancar seu braço até a escápula.
Posteriormente Samuel relatou que no momento do acidente não sentiu nenhuma dor, apenas um formigamento próximo a ferida, e, por estar bastante surpreso, nem chegou a notar que seu braço fora arrancado, até vê-lo preso na roda.
Por ocasião do sangramento, ele desmaiou. Em seguida foi socorrido pelo irmão, que chamou um médico que prestou os primeiros socorros, unindo as partes "carnudas" do ferimento com agulha e ligadura e enviando-o para o Hospital St. Thomas.
De alguma forma, a amputação acidental de seu braço foi um corte bem-feito, pois ele não sofreu uma hemorragia muito extensa e, já no hospital, os médicos concluíram que os tecidos ao redor da artéria subclávia (que foi seccionada com a lesão) teriam comprimido o vaso, agindo como uma espécie de torniquete natural.
Após essa ocorrência extraordinária, Samuel Wood se tornou famoso e seu braço amputado foi conservado em álcool após o acidente, a fim de atestar a veracidade do caso.
Realmente um caso incrível!
Parte F - Histórias macabras - o homem que partiu o pênis em dois.
Um homem de nome Gabriel Galien começou a se masturbar aos 15 anos, chegando ao excesso de praticá-la oito vezes por dia.
Não satisfeito em utilizar apenas as mãos, começou a estimular-se de outras formas como por exemplo, através da introdução de objetos na uretra.
A princípio introduziu gravetos de árvore e quando estes já não constituíam estímulo suficiente, lançou mão do uso de uma faca cega, com a qual excisou sua glande no sentido do canal da uretra - surpreendentemente, tal ato lhe causou extrema sensação de prazer e o rapaz, entregando-se avidamente a sua mais nova paixão acabou por dividir seu pênis em duas partes!
Após procurar o Hospital e ter o membro amputado pelo médico cirurgião Dr Sernin, Galien tornou a se aventurar com gravetos, os introduzindo no que lhe restava da uretra, até que o graveto quebrou e uma partícula se alojou em sua bexiga. Após a retirada do fragmento pelo médico, Gabriel ainda viveu por três meses, porém uma infecção decorrente da contaminação pélvica foi a causa da sua morte.
Conclusão: poderíamos dizer que o rapaz é um pervertido? Sim! Mas é mais provável que o mesmo sofresse de alguma desordem psiquiátrica, pois sua obsessão desenfreada não tratada é que foi o verdadeiro motivo de seu óbito.
Parte G - Perigos escondidos - um incômodo ardente.
Em Glasgow na Escócia, o Dr George Beatson se deparou com o relato explosivo de um de seus pacientes: um arroto que pegou fogo, após o assoprar de um fósforo.
O médico então resolveu publicar um artigo em um periódico a respeito da situação e a partir de então recebeu uma enxurrada de cartas de outros profissionais relatando casos semelhantes.
Mas qual seria o fenômeno originador de tal façanha? Depois de muitas conjecturas, os médicos chegaram a conclusão de que a expulsão de gases inflamáveis do estômago pela boca era um efeito colateral de algum tipo de indigestão.
Outro médico, o Dr McNaught decidiu investigar o conteúdo do estômago de seu paciente que havia arrotado enquanto também assoprava um fósforo, causando outra explosão. Através de uma sonda extraiu um líquido malcheiroso, cujo cheiro assemelhava-se a fermento azedo. A mistura era cheia de gás - um gás inflamável.
O médico concluiu que o homem era portador de uma obstrução intestinal, que impedia o conteúdo do estômago de chegar ao intestino delgado. Esse material acumulando-se, fermentava e liberava grandes quantidades de hidrogênio e metano que era expulsos pela boca.
Esse fenômeno foi corroborado por diversos outros profissionais da área e finalmente a origem dos arrotos explosivos foi esclarecida. Nada de sobrenatural, apenas gases que eram expelidos através do orifício errado!
Medicina Macabra é um livro com histórias muito ecléticas: desde situações vexaminosas, até os casos mais improváveis de cura, sobrevivência e resistência em uma época não tão distante de nós. Isso nos traz à reflexão o fato de que vivemos num conforto do qual não nos damos conta! Tratamentos médicos e farmacológicos de alta tecnologia, medicamentos e procedimentos que nos proporcionam o alívio de nossas mazelas físicas, o que há algum tempo atrás seria inimaginável...
A evolução da ciência nos últimos séculos foi espantosa, se compararmos com os milênios que antecederam nossa era atual. E a pergunta que fica é: será que existe possibilidade de mais evolução? Com a chegada da Inteligência Artificial vejo um futuro cheio de novas perspectivas - que venham as cenas do próximo capítulo!
Mas vale ressaltar antes de concluir: a evolução só foi possível porque sempre houve questionamento! Portanto, o cientista questiona e está sempre aberto a novas conjecturas e possibilidades.
Boa leitura!!!
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